É tempo de reconstruir as relações femininas

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Sem introduções, vamos direto ao ponto.

Faça uma conta rápida: calcule mentalmente quantas mulheres você conhece que alimenta algum tipo de rixa com outras mulheres. Aplique o mesmo raciocínio substituindo o sexo feminino pelo masculino. Agora pense em quantas vezes você já ouviu mulheres dizerem coisas como “prefiro ter amizade com homens porque mulher é tudo falsa e invejosa”, “mulher não presta”, “fulana roubou o namorado de ciclana”, “mulher que faz isso ou aquilo é puta”, e por aí vai… Pense também nas mulheres que pertencem aos mesmos núcleos sociais, independentemente do vínculo, que poderiam no mínimo buscar uma convivência respeitosa e construtiva, mas ao contrario disso alimentam relações degradadas por ciúmes e vaidades. Existem tantos exemplos relacionados a falta de empatia nas relações femininas que eu me canso só de pensar em enumerar.

Em via de regra, nós mulheres, nascidas sob o gênero feminino, somos apresentadas desde muito cedo à vaidade e à rivalidade. Eu raramente vejo um pai ou uma mãe repetindo para seu filho (do gênero masculino) que ele é o menino mais bonito da turma de judô. Em contrapartida, todo dia sai uma mãe de casa afirmando para sua filha que ela é a mocinha mais linda do balé, que os olhos dela são mais bonitos que o da Mariazinha, que o cabelo é melhor que o da Joaninha, que ela vai ser a miss da escolinha, e que coitada da Luluzinha que é tão gordinha. Por isso você não deve comer muito, senão você vai ficar feia igual a Luluzinha. E adivinha só quem é a melhor bailarina??? E assim segue a vidinha.

Aí a gente cresce cultivando esses princípios fúteis e os praticando com maestria. Como resultado a gente não consegue mais não ser a melhor, e quando definitivamente não somos boas em determinada coisa, passamos a tratar aquilo com desdém. Como se o fato de não sermos a melhor naquilo é porque aquilo simplesmente não nos interessa, do contrário, não teria pra ninguém. Parece mais fácil criar um argumento para justificar o segundo lugar do que aceitá-lo com dignidade.

Na vida adulta a coisa tende a piorar. Lembro-me de uma mulher do meu convívio que era muito bonita e cobiçada. Ela vivia dispensando vários pretendentes, mas era só ela ver que um cara que ela havia dispensado estava se relacionando com outra mulher que ela começava a jogar charme para o “ex rejeitado”. Ela reconquistava o cara, ficava com ele e logo em seguida o descartava novamente. Era praticamente um exercício para testar seu poder de sedução, alimentando assim sua vaidade e seu desejo de competir e ganhar.

Mulheres adultas competem por homens, beleza, corpos sarados, posição no trabalho, dinheiro, autoridade familiar, maternidade,  métodos contraceptivos,  parto mais bonito, e até para saber quem rebola melhor dançando até o chão no churrasquinho de domingo na casa dos amigos.

No trabalho, é lamentável o fato de nós mulheres apoiarmos a ideia de que homem é melhor para se trabalhar, e mais competente. O mercado de trabalho por si só já é uma merda pra gente, e aí nós mesmas nos fodemos ainda mais. Não seria mais adequado ajudar a colega que tá errando nos processos ou na postura? Custa tentar? Sobre isso eu posso falar por experiência própria pois já tive esse comportamento besta.

Repare só a reação das mulheres quando uma outra emagrece. Certamente haverá alguns comentário como: “tem tempo de sobra para isso”, “malhando desse jeito até eu”, “o marido que tá bancando”, “aposto que tá tomando remédio”, “ela deve ter feito lipo e tá escondendo da gente”. Mas como diz aquele ditado, a gente só vê as pinga que as pessoas bebem, mas não vê os tombos que elas levam. Tudo na vida tem um preço, e esse preço pode ser dinheiro, pode ser um tempo de lazer do qual a pessoa abriu mão, a pizza, o bacon e a cerveja que ela não vai poder desfrutar e até os possíveis riscos a saúde causado pelas drogas e procedimentos invasivos, mesmo que minimamente. É uma questão de escolha! Você pode até questionar a motivação, mas não desmereça o esforço.

Algumas mulheres quando tornam-se mãe chegam a me dar medo! Primeiramente porque boa parte delas parecem ter recebido o espírito divino da maternidade sublime, do amor supremo, da clarividência celestial e dos super poderes sobrenaturais. Tudo isso as torna superior em todos os aspectos em relação a nós meras mortais, que seja por opção, por incapacidade fisiológicas ou qualquer outro motivo, ainda não geramos e/ou nem iremos gerar uma vida. Não bastasse isso, elas começam a competir entre elas: quem segue a melhor linha pedagógica, quem oferece uma alimentação mais adequada, quem tem o filho mais lindo, o filho de quem teve a festa de aniversário mais bonita… e aí recomeça o ciclo perverso na vida de suas filhas, que hoje já contam até com chá de calcinha como cerimonia de rito de passagem de seus respectivos desfralde. Elas são tão engraçadas que após o surgimento da “desromantização da maternidade”, passaram a competir até nisso. Estão conseguindo transformar uma coisa tão legal e séria como esse conceito que promove sororidade e redes de apoio entre mães, num troço chato pra cacete. Pára né gente? Cês estão romantizando a desromantização.

Porém, não há nada que me angustie mais do que o fato de uma mulher julgar uma outra que foi vítima de qualquer tipo de abuso ou violência. Isso é recorrente e muito triste. Quantas vezes teremos que repetir que a culpa nunca é da vítima? Mas isso é assunto para uma próxima “conversa”.

Diante de tanta discórdia eu me pergunto o quão benéfico tudo isso pode ser para os homens. A desunião feminina pode até gerar desconfortos não só para eles, como para as relações dos seres humanos em geral, mas não tenho duvida que em partes o machismo é fortalecido com essa nossa inútil desconexão.

Apesar de eu ter recebido uma educação mais desprendida de vaidades que a de muitas mulheres, eu também já passei pela maioria das situações que citei acima, tanto no papel do algoz, quanto no do paciente. Hoje eu busco ter empatia e uma convivência mais respeitosa com todas as mulheres, mesmo com as quais eu não me simpatizo enquanto seres humanos. Afinal, nós temos todo o direito de não gostar de alguém pelo que ele é e representa, e não pelo seu gênero e escolhas.

Precisamos melhorar nossa convivência e reconstruir nossas relações, mulheres!

 

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